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quarta-feira, 23 de maio de 2012

O dia mais estranho de minha vida

Acordei, me espreguicei e fiquei alguns instantes admirando o sol que entrava pela janela. Olhei no relógio de cabeceira, 10 h! Como assim? Porque minha mãe não me acordou pra aula? Levantei correndo, de repente estaquei. Aquele não era meu quarto. Abri o roupeiro. Roupas de executiva, vestidos chiques e vários sapatos de salto. Devo estar sonhando, eu jamais me vestiria assim, aquele definitivamente não é o quarto onde dormi na noite anterior.

Me sentei a beira da cama e refleti um pouco. Era uma terça-feira, não fui a nenhuma festa, nem viajei. Como aquilo era possível? Me deitei denovo, fiquei absorta olhando para o teto.
Toc, toc, toc. Alguém bate à porta. Mandei entrar. Me sentei pra ver que adentraria o recinto, torcendo pra ser minha mãe ou uma madrinha desconhecida.

Uma empregada. E ela me perguntava se eu gostaria do café agora ou mais tarde. Eu falei que podia ser agora. Pediu licença e se retirou. Porque eu não perguntei nada? Sei lá, me esqueci, cabeça cheia.
Desci as escadas desconhecidas e procurei a cozinha pra tomar café. Depois de uns 10 minutos eu a encontrei. Uau que cozinha! Minha mãe ia ficar louca se visse isso. Me sentei a beira do balcão e esperei me servirem.Quando a moça que foi ao meu quarto me viu sentada, levou um susto. Fiquei envergonhada, vai ver que eu não deveria ter sentado ali.

Ela me perguntou o que eu estava fazendo na cozinha. Falei que havia descido pra tomar café. A moça perguntou-me se eu estava bem, e eu disse que sim, e aproveitei pra perguntar onde eu estava. Me olhou com incredulidade. Como se eu estivesse louca. Me pegou pelo braço e me conduziu para uma sala enorme, maravilhosamente decorada. Não me sentei. Ela ainda não havia me dito onde eu estava.

Ficamos ali paradas por um bom tempo, em pé, uma em frente a outra. Até que ela me trouxe um porta retrato. Era eu! Mais velha, e mais bonita! E magra! E casada! Casada? Pedi que ela me explicasse o que estava acontecendo.

A moça pacientemente me disse que se chamava Amália e que trabalhava pra mim à 15 anos. Que eu era uma decoradora de interiores de renome, que meu marido era empresário e que estavamos nos recuperando da morte de um filho de 17 anos. Fazia uma semana que eu não saia do quarto, só chorava. Pedi pra ela me mostrar a foto do meu filho desconhecido. Não pude conter algumas lágrimas pois era um menino lindo e cheio de vida, mas eu não me lembrava dele. Eu não me lembrava de nada! Amália ligou para um médico, depois para meu suposto marido. Ele era bonito, mas eu me sentia com 18 anos, e pra mim ele era velho. Avisei-a que voltaria a me deitar, queria me ver no espelho.

Quando me vi, tive um choque. Como? Será que eu tive amnésia? Gente cadê os 22 anos que não me lembro? O que será que fiz neste tempo todo? Será que realizei meus sonhos, ou simplesmente me esqueci deles? Eu havia tido um filho, mesmo sabendo que com 18 anos eu tinha pavor de criança.

Me deitei. Passados 10 minutos chegou um médico com um semblante preocupado. Me chamou pelo nome e mediu minha pressão e temperatura. Foi ao meu banheiro (meu banheiro!) e trouxe um vidro de remédios calmantes vazio. Sentou-se em um sofá e me fez algumas perguntas tentando descobrir o que eu estaria pensando. Chegou meu "marido" e se sentou ao meu lado quase chorando. Perguntou-me se eu lembrava dele. Disse-lhe que não. Ele começou a chorar e disse a famosa frase: O que foi que eu fiz?

O médico foi até ele e conversaram baixinho. Quando o meu marido chegou até mim, afagou meu rosto e me perguntou se eu aceitaria ser internada. Claro que não! Nunca estive tão bem! Ora essa.

Foi a vez do médico. Me disse que provavelmente eu havia ingerido uma quantidade muito grande de remédios e que isso havia interferido em minha memória. Perguntei se tinha cura. Ele me disse que isso dependeria, eu precisava fazer exames para saber a gravidade.

Alguns dias depois recebi a notícia de que não havia cura e que eu teria que me acostumar com a velha nova vida. Meu marido me fez apaixonar por ele, mas jamais pude voltar a trabalhar, não me lembrava mais do que eu devia fazer. Hoje já me acostumei, mas foi difícil. Queria poder me lembrar do meu filho.

Este foi o dia em que acordei com 30 anos.
________

Conto escrito por Gabs Rohde em Coffee&Muffins em 23/07/2009

6 comentários:

  1. nossa! vou me lembrar de nao tomar muitos remédios pra dormir e nem de ficar muito tempo no quarto chorando.

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  2. Aconteceu mesmo?
    Parecia que estava lendo uma estória, um livro.
    Abraços, e muita saúde pra ti com a graça de Deus.
    Tenho 52, tomo remédios, um pra memória, fraquinho, e já fiquei preocupado.
    Lembro de um filme com um ator hollywoodiano conhecido, só não lembro do nome dele, nunca gravei o nome dele.
    O filme é bem legal.

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  3. Quando li o primeiro parágrafo, lembrei do filme "De repente Trinta", em que a personagem principal, de treze anos, de repente acorda com trinta e vai descobrindo o tipo de vida que levava.

    Interessante o texto, deixa margem para várias indagações... O que ocasionou essa falta de memória? Ou será que a personagem viajou mesmo no tempo? (rsrs)

    Mostra como a nossa mente pode pregar peças.

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  4. Gabs, você escreve bem demais! Linda e triste história, bom que a moça, perdida na memória, pelo menos veio para uma vida boa (monetariamente falando). Pior seria se fosse o contrário e triste é ter um filho "no passado" e sequer se lembrar dele. Ou melhor, pois pelo menos não sofre. Enfim, adorei o conto e pronto!
    Beijo!

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  5. Que lindo, Gabs! Nunca tinha lido esse teu texto! Excelente!

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  6. Uau, que texto! E isso acontece em várias vidas por aí, de um jeito diferente, claro. Fiquei pensando nas pessoas que simplesmente vivem, deixam sua vida passar diante de seus olhos, e não aproveitam de verdade suas vidas e quando se deparam, já passaram anos e anos e elas não sabem ou não entendem como chegaram lá e por quê.

    Enfim,excelente mesmo!
    Beijos

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