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terça-feira, 15 de maio de 2012

Nayara e Bianca



Esta história é completamente ficcional. Foi baseada num dos momentos iniciais do filme "Jovens demais para casar".


Eu tinha oito anos quando meus pais se separaram por causa de Eleonora. Desde então, esse nome entrou para minha lista negra. Tive problemas com mais duas Eleonoras que conheci na vida. Parece estranho, mas quem nunca deu azar de encontrar duas pessoas com o mesmo nome que cometeram o mesmo erro conosco? Conheço uma amiga que teve problemas com duas Annas, e outra que não se dá bem com homens chamados "Filipes", sem falar na minha mãe que tem azar com os Carlos que entram em sua vida. Um deles era o meu pai, é claro.

Eleonora conseguiu fazer com que eu odiasse meu pai. Não quis visitá-lo durante meses, mas eu tinha uma mãe compreensiva. Mamãe não queria que eu fosse fiel a ela. Era psicóloga e sabia o quão difícil era para uma moça crescer sem o pai. Imagino que é preciso muito caráter para tomar essa decisão. Somente por ela me permiti reatar com meu pai, mas não foi fácil. Eleonora não jogava limpo. Era bonita, mas tinha um lado mau. Gostava de me censurar por ter ficado dois meses sem falar com meu pai, se intrometia nas minhas amizades (destruiu algumas inclusive) e às vezes gostava de dizer que eu era muito sem graça e que não seria nem um pouco bonita quando ficasse mais velha. Tudo isso, obviamente longe de meu pai. Hoje penso que ela devia morrer de ciume de mim.

Meus pais não ficaram sabendo da perseguição de Eleonora. Não era nenhum pouco interessante que soubessem. Papai provavelmente diria que eu é que perseguia o "docinho de coco dele", e minha mãe armaria o maior barraco com a nova esposa de Carlos, acabando por ser vista como a ex mal-amada. Protegê-los porém, não me fez bem. Cresci acreditando que era feia, e entreguei-me à companhia de Mozart, Jane Austen, Harry Potter e Carlos Drummond de Andrade.

O segundo inferno de minha vida aconteceu quando completei 10 anos. Eleonora resolvera engravidar para que meu pai lhe desse mais atenção do que dava à mim. Eu também pensei que isso aconteceria e torci para que o bebê fosse mais feio que eu para que pelo menos eu tivesse uma chance. Muitos em meu lugar teriam desejado a morte à nova criança, mas sempre tive instinto humanitário. Quando Voltaire disse que defenderia até a morte o direito das pessoas de se expressarem mesmo que elas diferissem dele, me senti identificada. Ele me inspirou pro resto da vida. Era por isso que eu gostava de História, podia me transportar para outras épocas e conhecer antigos pensamentos. Voltando à vaca fria, a mesma essência me levava a crer que por mais que se odiasse uma pessoa, deveria-se respeitar o direito à vida que ela possui. Apenas me limitei a ver com tristeza a gestação de Bia.

O nascimento ocorreu em dezembro de 1991. Eu já completara 11 anos. Fui obrigada a visitar Bianca no hospital porque coincidiu com o dia da visitação. A neve caía fraquinha, e eu desejava ser apenas um floquinho congelado de água. Não queria entrar lá e me sentir inferiorizada, mas como sempre, segui calada.

A porta do quarto estava aberta. Eleonora estava desesperada com o choro forte de um bebê que ela empurrava para a enfermeira. Já havia amamentado por duas horas e o bebê ainda continuava com fome. Na minha opinião, era meio óbvio que aconteceria aquilo. Eleonora passara fome na gravidez pra não engordar. Bianca era saudável porque Deus quis, mas era esfomeada por causa da mãe. A enfermeira ofereceu o bebê ao meu pai para que ele a fizesse dormir (por incrível que pareça meu pai tinha mais jeito com bebês do que muita mulher por aí), mas ele queria que eu a conhecesse, então sobrou pra mim.

No instante que coloquei Bianca no colo, algo mágico aconteceu: o choro cessou. Ela fez uma carinha engraçada, e me lembrei do Baby da familia dinossauro dizendo: "Ela não é a mamãe!". Constatei que ela era linda, e parecia um pouco com meu pai por ser loirinha, mas o nariz e os olhos ameaçavam ser de Eleonora. Curiosamente não a tratei como minha rival, curti a cada momento aquela criaturinha. Aos poucos ficou claro para mim que eu teria que ajudar meu pai a criá-la. Eleonora não era o tipo de mãe muito presente, a pesar de que eu não duvido que ela gostasse da filha. Demonstrava seu afeto com coisas caras e passeios em shoppings, mas para todo o resto Bianca viria recorrer à minha ajuda.

Vi Bibi crescer e se tornar minha melhor amiga. Seu primeiro sorriso foi para mim quando quiquei uma bola na sua frente. Ela andou com minha ajuda pela primeira vez, e corria para me abraçar sempre que eu vinha para a visita (o que acabou acontecendo com muito mais frequência do que só nos finais de semana combinados). Minha mãe muitas vezes me acompanhou e me deu dicas para cuidar do neném. Eleonora tinha ciúmes, é claro, mas como estava fora na maioria das vezes não viu a maior parte das coisas que não deveria ver. Uma delas foi a primeira palavra de Bibi: Nana. Um apelido que me dei porque Nayara seria difícil de pronunciar.

Aos 14 decidi morar com meu pai para ficar mais perto da escola nova. Mamãe se casara de novo e eu não gostaria de melar a segunda lua de mel dela. Jonas era um cara maneiro e eu tinha certeza de que a faria feliz. Era o tipo de cara que tinha a auto-estima no lugar: nem convencido nem humilde, apenas seguro de quem era e do que queria. Por mais que amasse meu pai, às vezes ficava pensando em como seria ser filha de Jonas, e outras muitas vezes pensei se me aceitaria caso eu quisesse voltar para minha mãe.

Com isso, a perseguição de Eleonora se tornou mais frequente. Minha auto-estima era frágil, e eu acreditava em todas as coisas ruins que ela falava de mim. Até temi minha influência sobre minha irmãzinha, porque "Nora" (como meu pai a chamava)pintava uma menina sem caráter quando falava de mim, mas Bibi estava sempre comigo. Com sua sabedoria infantil, sempre descobria quando eu estava triste, mesmo quando não presenciava minhas discussões com Eleonora.
"Nana, mamãe é biruta. Você é linda! Quero ser como você." Mas eu atribuía isso ao amor dela por mim. Só descobri que era bonita aos 16 quando os amiguinhos dela na escola disseram que eu era linda. Um deles me deu uma margarida e pediu minha mão em casamento. Bianca morreu de rir disso, e eu toda sem graça procurei tato no mais profundo lugar de meu ser, para responder à altura de uma criança de 6 anos.

Comecei a me preocupar mais com a aparência depois disso.Por mais que eu nunca viesse a me tornar uma Angelina Jolie,(femme fatale não é meu estilo) comecei a gostar da sensação de ser apreciada. Com a descoberta de meu amor próprio, acabei atraindo garotos da minha idade também. Tive alguns namorados, que Bianca ajudou a esconder de Eleonora, porque ela adorava dizer coisas indiscretas para me envergonhar. O único caso em que nossa aliança fraquejou foi quando Bibi, se apaixonou por um namorado meu. Jack era muito brincalhão e adorava crianças, acabou encantando minha pequenina irmã. Foi um grande problema, a sorte é que Jack tinha um irmão chamado Sólon. Era um a cara do outro, e Sólon era só uns 2 anos mais velho que Bibi,tinha uns 13 anos. Não digo que eles tenham se apaixonado, mas quando vinha me namorar trazia o irmão prometendo um passeio de moto se ele distraísse Bibi. Eles brigavam muito, mas acabaram ficando amigos.

Nessa mesma época, eu já tinha 21 anos. Estava cursando Bellas Artes numa faculdade local que me permitisse dormir em casa ao invés de ter que dividir um dormitório. É claro que ainda me sentia responsável por Bibi, mas também estava juntando uma grana para comprar o meu primeiro lar. Nos anos seguintes a relação de meu pai com a nova esposa estava melando cada vez mais. Papai pela primeira vez estava se tocando de como ela me tratava, e da ausência dela na vida da filha mais nova. Foram épocas difíceis para Bibi, e me lembrei de quando aconteceu comigo. Nenhum armário era suficiente para me esconder quando as brigas ficavam feias e o medo me consumia.

Eu e Jack acabamos virando o porto seguro dela. Até Sólon virara parte da família de Bianca. Quando anunciamos nosso casamento, lembro que ela pediu para morar conosco, o que por mim teria acontecido, e Jack também não se importava, mas meu pai e a esposa resolveram usá-la como corda pra cabo de guerra.Sempre que pude estive com ela dando apoio. Tinha dias que elas saía da escola e vinha direto para minha casa ou pro meu trabalho (trabalhei como garçonete no Child's) porque não aguentava o clima tenso.

Quando ocorreu finalmente o divórcio, Bianca escolheu ficar com meu pai, e foi feliz à sua maneira. Ela também temeu a chegada de meu filho Charles, e mesmo que não tenha criado uma relação com ele como a que tivemos, sei que ela também acabou se encantando com o crescimento da família. É esse o destino de uma família saudável não é?

3 comentários:

  1. Gente me desculpem por esse texto, é dramático e chato demais rsss. pq só vi isso agora?

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  2. Nada disso, Aleska, a história é linda. E muito bem escrita.
    Beijim!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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