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quarta-feira, 25 de abril de 2012

Apenas mais uma história de amor...

Cheguei do trabalho e ele estava lá, do outro lado da rua, bêbado. E a sua mãe com uma criança recém nascida no colo, conversava nervosamente com minha mãe. Chego e pergunto o que aconteceu.

Dona Beatriz olha pra mim nervosamente, como quem não sabe como dar a notícia. Lucas havia tido um filho, aquela criança nos braços dela. E a mãe do menino havia morrido ao dar a luz. Quando me virei novamente, olhei-o nos olhos, e ele me sorria amargamente, como quem diz: - Viu? Eu tive o que mereci, está feliz?

À anos atrás, Lucas havia sido meu amor de infância. Trocávamos cartas apaixonadas, sem nunca termos nos falado. Eu amava ele, demais, desde o primeiro dia que o vi, e acredito que ele sentia o mesmo. Era primo do meu melhor amigo, Fernando, e veio morar em nossa vizinhança derepente, vindo de outra cidade. Ficamos nos enamorando por uns dois ou três anos, ná época eu tinha nove anos, e ele onze. Por ironia do destino, eu fui estudar fora do país, durante todo o ensino médio. Quando voltei, ele estava mudado. Eu vi assim que o olhei nos olhos. E vi mais. Vi que ele não havia me esquecido. E nem eu o havia apagado da memória. Todos os dias me lembrava dele, e muitas vezes chorei por ter ido embora sem ao menos conseguir dizer o que sentia por ele olhando em seus olhos. E jurei pra mim mesma que quando voltasse seria diferente.

Quando cheguei, depois de quatro anos fora, não vi ele por alguns dias. Olhava aflita entre as cortinas, esperando visualizar ao menos a silhueta. Até que um dia, quando eu estava chegando em casa de um passeio sozinha, e ele estava sentado no cordão da calçada, na frente da minha casa. Foi pior do que eu imaginava. Ele estava crescido, amadurecido, mas quando o olhei de perto, vi aquele mesmo Lucas que eu havia deixado pra trás. E isso me deixou com as pernas bambas, torcendo para que a presença dele ali fosse mera concidência do destino. Não estava preparada para conversar com ele:

- Oi Júlia, fiquei sabendo hoje que você tinha voltado, e como eu queria te ver fiquei aqui te esperando chegar. Gostaria de dar um passeio pelo bairro comigo para conversarmos um pouco?

Levei alguns segundos para me acostumar com o choque da abordagem súbita e inesperada dele.

- Ah, claro! - Foi só o que consegui dizer.

Andamos um pouco, e ele puxou assunto, me perguntando algumas coisas sobre minha vida lá, e falando um pouco da dele aqui. Até que em um momento ele parou em minha frente, e me disse:

- Eu senti muita saudade, chorei vários dias depois que você se foi. Sua mãe sabe, pedi pra ela não te contar, mas todo dia eu ia lá pedir pra ver uma foto sua, até que ela me deu essa. - E ele tirou do bolso uma foto meio amassada, que eu havia tirado no jardim de casa, com Lucy, minha cachorrinha que levei comigo para Flórida. Fiquei em silêncio, as palavras fugiram e me senti vazia, como se um chumaço de algodão ocupasse o local do meu cérebro. Ele me olhava com aqueles olhos enormes, meio puxadinhos nos lados, que eu nunca havia visto tão de perto, e estava fascinada, hipnotizada. Eu amava ele, mais do que antes. E foi nesse instante que meu mundo desabou.

- Jú achei que tu não fosse mais voltar, me acostumei com a ideia de não te ter. Sempre te amei, e agora que te vejo aqui,sei que ainda te amo. Mas eu estou namorando, e não quero magoar a Fabi, ela me deu muita força para tentar te esquecer, não posso deixá-la assim.

Nisso meus olhos se encheram de lágrimas, e ele me beijou. Não tive coragem de reijeitá-lo, afinal esperei tanto tempo por aquele gesto que queria aproveitar até o último segundo.

- Te amo. - Ele me disse. - Quero que tu jamais duvide disse, e saibas que jamais vou repetir. Foi a primeira e única vez que digo que amo alguém, e acredite, é sincero, pena que não podemos ficar juntos, o destino não quer.

E nisso ele vira as costas e vai embora, me deixando ali, no meio da rua, sozinha e completamente frustrada. Eu não disse nada a ele. Perdi minha oportunidade, e não sei se teria outra.

Depois deste incidente, fiquei algum tempo sem vê-lo, e quando o vi denovo foi de relance, como em todas as outras vezes.

Minhas amigas me contaram coisas sobre ele, que me chocaram. Entre outras, a bombástica era: ele pegava geral. Não escapava ninguém, ele passava o rodo literalemente. Vem cá, e a namorada? Ele disse que não queria magoá-la, mas imagina quando ela descobrisse os "pulos" dele? Bom, cada um, cada um. Jurei não me meter na vida dele, ele havia escolhido assim, e eu nada podia fazer.

Depois de mais ou menos um ano, ele me ligou, pela primeira vez, não sei de onde tirou meu número, mas ligou. Queria me encontrar. Aí joguei tudo pro alto e decidi ser mais uma na vida dele, afinal, eu queria ele, e não importava o preço a pagar por isso.

Começamos a nos encontrar periodicamente, até saíamos juntos. E eu gostava. Mas queria ele só pra mim, o que não podia ser. Um dia, sem mais nem menos, ele me perguntou se eu aceitaria namorar com ele. Disse pra mim que largaria tudo só pra ficar comigo. A chance que eu queria. Mas algo falou mais alto, e num cutuco me veio a mente, as traioções dele com a namorada. Se ele traía ela, será que não me trairia também? Foi o que eu disse a ele, sem rodeios. Ele ficou mudo, me disse que não sabia que eu conhecia esses fatos. E não negou. Pediu desculpas, e disse que não queria mais me ver, nunca mais. Pra não me magoar.

- Jú não quero te magoar, e acho que é exatamente isso que estou fazendo. Você não merece alguém em quem não pode confiar. É melhor deixarmos tudo como era antes, você segue sua vida, e eu a minha.

Isso me magoou, ele estava me deixando, me largando. Ele nem sequer disse que mudaria por mim, que me provaria fidelidade. Gritei pra quem quisesse ouvir:

- Você vai pagar, eu juro! Isso não se faz com o coração de uma pessoa! Usa e quando não quer mais, joga fora! Você nem deve saber o que é isso, pois não tem um! - Dei meia volta e o larguei ali mesmo, sem nem um adeus.

Nunca mais olhei pra ele, nem sequer o cumprimentava mais. Passaram-se uns dois ou três anos, até este dia fatídico, dele e do filho.

Enquanto olhava para ele arrasado do outro lado da rua, me veio todas essas lembranças a mente. Larguei minha bolsa, e corri até ele, agarrei-o com os dois braços, bem forte, e chorei como nunca. E ele, chorou junto. Me pediu perdão, e eu não entendi porque, afinal ele sempre fora sincero comigo, até aquele instante, e eu não quis ver.

Então ele me contou que na noite em que ele chorou por mim pela última vez, ele havia feito um juramento, de jamais se apaixonar denovo, e que a partir daquele instante, ele apenas usaria as mulheres para se satisfazer, sem se importar com os sentimentos delas. Mas quando me viu, sentiu-se confuso, e quase havia desistido, naquele dia em que havia me pedido em namoro. Mas eu o rejeitei, e ele então ficou com raiva de mim, sendo mais infiel que nunca, e até descuidado. Tanto que havia engravidado a namorada. E agora, ela estava morta, e a culpa era dele.

Naquele momento eu vi que havíamos sido feitos um pro outro, e que jamais daríamos certo se não fôssemos um com o outro. E tomei a decisão mais difícil e impensada da vida. Olhei pra ele nos olhos, e pedi ele me namoro, dizendo que o ajudaria a criar o menino, como se fosse meu, que ele não merecia crescer sem mãe. Que eu o amava muito, e que sempre amei, que não conseguia namorar outra pessoa, pois era ele quem eu queria. Ele riu. Riu e me perguntou se eu havia ficado bêbada por osmose. Mas como viu que eu não estava achando graça, se levantou e saiu, me deixando só ali. Fiquei frustrada, e me sentindo uma idiota. Fui pra casa, e dormi o resto do dia, não queria pensar em nada.

Sete horas, e trinta e dois minutos. Campainha tocando. Me levanto toda grogue, de pijamas, e vou ver quem é o doido varrido que vai à casa dos outros naquela hora em um domingo.

Ele estava lá, de terno, com um buquê de rosas e uma cesta de doces. Esfreguei os olhos, eu só podia estar sonhando. Até que ele falou:

- Posso entrar?

- Aham.

Abri o portão, e ele entrou. Entramos na sala, ele me pegou pelo braço e tirou do bolso uma caixinha de jóias, se ajoelhou e me pediu em casamento. Assim, do nada. Falou que concordava com o que eu havia dito no dia anterior, e que eu não merecia um namoro comum, ele queria viver comigo, no mesmo teto, na mesma cama. E que não aceitava um não como resposta.

Adivinhem?

É, estou casada, temos dois filhos. O João de cinco anos e a Helena de dois meses.

Nunca pensei que seria tão feliz como sou com o Lucas, ele me completa, me dá uma vida que jamais sonhei. 

Deus muito obrigada, agora sei que para termos uma vida feliz, precisamos sofrer um pouco, senão, não damos o valor devido.

*Esta história é fictícia.
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Com esse conto Gabs faz sua estreia no Em Quantos, esse conto foi originalmente postado em Coffe&Muffins em 02/10/2009.

2 comentários:

  1. Eu não sei se teria o altruísmo da personagem para perdoar os erros e amar assim incondicionalmente, mas que o final feliz sempre é algo bom....Aaaaahhhh isso é!!!

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  2. Lembro de ter lido esse conto no blog da Gabs... Lindo!

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