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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

ADOLESCÊNCIA

O Peter mudou-se para a minha rua faz uns quatro anos. Bem em frente à minha casa. Menino tímido, eu o encontrava sempre que chagava de uma caminhada e ele estava na porta bem cedo esperando o ônibus escolar. Trocávamos um bom dia e cada um seguia sua rotina. Ficamos um bom tempo sem nos ver. Os horários perderam a coincidência e ele pouco sai de casa.  Dia desses passei por um mancebo de quase um metro e oitenta na rua, que me cumprimentou com voz grave.  Respondi pelas boas maneiras e fiquei intrigado: morador novo? Acompanhei sua trajetória e o vi entrar em casa. Me assustei com o menino. Era ele mesmo, o Peter, já um rapaz. Meu Deus!

Lembrei-me das transformações por que passei nessa época. Assim, do nada, começaram a botar pelos por todos os lados e cantos e interiores, a voz foi engrossando, o pé crescendo a ponto de dividir com meu pai sapatos e roupas. Uma colega me dizia que a sombra escura que apareceu sobre meu lábio superior era um “monogode”, tinha grande chance de virar bigode um dia. E a libido subindo e descendo, descendo e subindo, subindo e descendo, o dia inteiro. Até nos sonhos ela me encharcava (já não era mais xixi na cama).  As brincadeiras começaram a perder a graça e o sonho de tornar um adulto foi me embalando naquela adolescência que não manda avisar. Tinha que me virar sozinho; ninguém falava nada, ninguém orientava que “daqui pra frente tudo vai ser diferente”.

Foi a hora que o mundo começou a ficar pequeno diante da minha prepotência de “sabe tudo”. Pai, mãe e adultos são os inimigos junto com o estado, todas as formas de governo, qualquer mecanismo de controle do ser que irrompe para o mundo querendo que este se curve diante de seu poder imaginário. É uma discordância generalizada, é uma afirmação de tudo que é negado e uma negação de todas as ordens estabelecidas a um só tempo. Nem bêbado tem mais razão que um adolescente. Qualquer concordância que  assumia era por educação de berço. No fundo, quando não havia uma turma em volta, era até aceitável ouvir alguém mais velho. Fora isso, o negócio era virar o mundo de cabeça para baixo. Desde que ele não caísse do meu umbigo, o seu abrigo mais seguro e mais correto. Apareceram vários tipos de rebeldia. Umas sem causa outras sem argumento.

 Para mim foi a fase mais maravilhosa e mais perigosa do ponto de vista da sobrevivência. É quando os medos todos se vão e a capacidade de heroísmos e covardias está mais aguçada. A mesma coragem capaz de fazer entrar numa fogueira para tirar alguém se queimando é a de ser o incendiário. Depende da formação anterior depende da influencia do meio. Não havia soluções caseiras, nem meios termos. Adolescente radical em tudo movido por um combustível chamado paixão. Até pelo ódio havia paixão.

Pensando bem, melhor não misturar as coisas. Não vou falar da responsabilidade que começou muito cedo com trabalho para garantir os estudos, da falta de tempo para  levar às ultimas conseqüências a responsabilidade que não queria assumir mas que não restou opção, não vou falar da transição pouco amigável da infância para a adolescência e daí para a vida adulta senão eu acabo prejudicando o que falei da adolescência que passou como o Peter passou  por mim na rua. Rápido demais e sem muito papo.

3 comentários:

  1. Linda crônica, lembranças e essa época voou mesmo, rápido demais e nunca mais voltou...

    abração,chica

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  2. Delícia de texto, Cacá, como sempre.
    Não tenho boas lembranças da minha adolescência, em minha casa ninguém tinha vontade própria, minha mãe era uma "generala" e se passei por conflitos da idade, fiquei bem caladinha...rsrs
    Lembro-me que aos 16 anos passei - muitos anos depois descobri - uma depressão das bravas, e não tinha como desabafar, quando tinha coragem de falar algo, ela dizia que "ia passar" rsrs Acho que ela pensou que fosse crise da idaade masmo. rsrs
    Meus filhos também não me deram trabalho nessa época, nada de "crise existencial", de querer "cantar de galo" (agora, escrevendo isso, acho que tb agi como uma "generala" com eles... Freu explica?).
    Só sei que, apesar dos percalços, é um bom tempo da vida.
    Abraço!

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  3. Oi Cacá!
    Voa mesmo!
    É uma fase curta e intensa! pelo menos foi em nossa época, pois hoje os jovens querem torná-la vitalícia.rsss
    Excelente crônica!
    Abraço!

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