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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Um porto chamado Angola!

De vez em quando eu gosto de namorar meus livros, organizar minha bagunça, mexer aqui e acular, vê os sonhos de consumo literário que eu já realizei e os que eu ainda estou por realizar... Foi em uma dessas ocasiões que eu descobrir que realmente apesar de trabalhar desde os 17 anos e não ter um carro, uma casa, uma poupança e um bando de traquitana tecnológica eu tenho uma estante considerável com meus exemplares relacionados a História, os volumes de literatura brasileira, francesa, inglesa, espanhola, alemã, tem até mangá em japonês e um exemplar de "Contos Austríacos", mas nem uma virgula, um til, uma poesia, conto, romance vindo daquele imenso e diverso Continente que chamamos de África.
 
Quando percebi isso comecei uma saga rumo a África e sua literatura... rsrs... Oxe, o mergulho foi assim tão incrível que nunca acabou o continente Africano é um mar de poesia, contos, romances, Histórias, eu me perco e me encontro, na verdade estou em viagem a África, meu barco é a Literatura, o perigo é nunca mais voltar e meu desejo hoje é compartilhar com os que por aqui passarem um dos portos pelos quais andei.

Angola foi meu primeiro porto, cheguei lá através do "A Kinda e a Misanga", livro lindo, meu xodo, que fez conhecer Joaquim Dias Cordeiro que no século XIX escreveu Negra e eu fiquei pensando, muito do movimento negro nasceu aí:

 "Negra! negra! Como a noite
d'uma horrível tempestade,
mas, linda, mimosa e bela, 
como a mais gentil beldade!
Negra! negra! como a asa
do corvo mais negro e escuro,
mas, tendo, nos claro olhos,
o olhar mais límpido e puro!" 

Encontrei com Viriato da Cruz, falando sobre um Namoro tão africano que me fez pensar que africanos somos todos nós que nascemos no Brasil especialmente pelo fim do poema quando ele mostra como ficou depois das negativas de sua amada e como resolveu seu impasse amoroso.

"Andei barbudo, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"-Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
levaram-me ao baile do Sô Januario
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso
as moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim !"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim."

Não posso deixar de lembrar do meu encontro com Agostinho Neto, falando sobre "Fogo e ritmo":

"Sons de grilhetas nas estradas
cantos de pássaros
sob a verdura húmida das florestas
frescura na sinfonia adocicada
dos coqueirais
fogo
fogo no capim
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte.
Caminhos largos
cheios de gente cheios de gente
em êxodo de toda a parte
caminhos largos para os horizontes fechados
mas caminhos
caminhos abertos por cima
da impossibilidade dos braços. 
Fogueiras
       dança
       tamtam
           ritmo

Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no movimento
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços
ritmo nas unhas descarnadas
Mas ritmo
ritmo.

Ó vozes dolorosas de África!"

Ou de contar de como me emocionou quando li pela primeira, segunda, terceira, quarta, quinta, milésima vez os versos de "Havemos de voltar":

"Às casas, às nossas lavras
Às praias, aos nossos campos
Havemos de voltar.
Às nossas terras
Vermelhas do café
Brancas de algodão
Verdes dos milharais
Havemos de voltar.
Às nossas minas de diamantes
Ouro, cobre, de petróleo
Havemos de voltar.
Aos nossos rios, nossos lagos
Às montanhas, às florestas
Havemos de voltar.
À frescura da mulemba
Às nossas tradições
Aos ritmos e às fogueiras
Havemos de voltar.
À marimba e ao quissange
Ao nosso carnaval
Havemos de voltar.
À bela pátria angolana
Nossa terra, nossa mãe
Havemos de voltar.
Havemos de voltar
À angola libertada"

Eu ainda não sei se há realmente para onde voltar, uma vez que essa boa imagem a respeito da África pré-colonial foi uma construção desses homens bem mais de que uma realidade, mas nem isso me faz deixar de me arrepiar cada vez que leio esse poema...

A poesia da África que comecei a conhecer a partir de Angola fez surgir diante de mim a força de um povo que sonha e escreve sobre seu futuro... Que quer liberdade, justiça, a frescura da Mulemba essa árvore ancestral que abriga a todos que precisam de sua sombra. Sonhos bem parecidos com os nossos... Ou será que os nossos sonhos são parecidos com os de África, já que primeiro veio a África e depois os brasileiros, junção nada coesa de brancos, índios e negros?

Há eu não sei, sei apenas que começar navegar nos mares de África, através de sua poesia, sentar na sombra da Mulemba, essa árvore sagrada que foi também simbolo de um processo de independencia, foi e tem sido um prazer.

 
Imagem daqui!
A ´poesia de África é um canto para todos, só me entristece perceber que na televisão, no jornal, na novela, nos livros de história, geografia, literatura... Ela nem apareça... Nem na Universidade se estuda Literatura Africana e eu começo a pensar que isso é um absurdo, ao menos no pais que tem a maior população negra fora da África e uma lei que obriga as escolas a ensinarem História e Cultura Africana e Afro-brasileira.

12 comentários:

  1. Muito legal, eu nunca tinha parado pra pensar sobre isso, que bom que sempre tem alguém que pensa e faz agente pensar também.
    Beijos
    Garota Eclética

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  2. Que bom que você curtiu a viagem Adriana!!!

    Cheros!!

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  3. África é um continente especial...

    Abraço.

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  4. Pandora,

    Encontrei você no blog Ondjira Sul de autoria do Namibiano Ferreira.

    Foi um prazer chegar aqui. Nada li além deste trabalho seu, mas "Um porto chamado Angola" emocionou-me.

    Estou pesquisando sobre a literatura angolana para fazer uns posts sobre Angola. Como vc, estou encontrando sentimentos "uterinos" por lá.

    Obrigada pelo girassol desta tarde de feriado e muitos girassóis todos os dias na sua vida.

    Beijo

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  5. Pandora, um texto lindo, denso, amável.
    Por que mesmo não se valoriza a cultura africana, num país que dependeu tanto dela, da alimentação à mão-de-obra? Hoje somos a somatória de várias culturas, sendo que a africana é a mais marcante, na minha opinião.
    Conheço um blog ótimo, de um português que ama a África com paixão:http://transpondo-barreiras.blogspot.com/
    Ele é o José Souza, tenho certeza de que vai gostar da hitória dele.
    Beijo!

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  6. @Lúcia Soares Lucia, já fui lá conferi, obrigada pela dica!!!

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  7. Como amo a cultura Africana

    roupas, acessórios, dança, costumes, tudo..
    Lindo texto tão rico Pand..

    cheiro

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  8. @Celina Dutra Oh Celina que prazer ser encontrada por você!!! Também te desejo todos os girassois do mundo!

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  9. @Sônia CristinaSôninha (oia a intimidade), obrigada pelas palavras doces!!!

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  10. Sonia... o mundo perde tanto, a toa... por preconceito, por ignorância, não sei o motivo. mas como perde. ignora um continente inteiro, a África. E qse ignora os não-brancos da Ásia, os latinos (nós na conta). só vale Europa/EUA.

    e veja vc, como a África é rica! Em cores, cultura, música, sabores... e o mundo nem tem conhecimento disso. enxerga só a pobreza, a falta e a miséria. pobre povo "culto", que fecha os olhos para outras riquezas.

    tão importante a divulgação destas culturas, pega-se amor pelo local.

    e quem ama cuida, quer ver bem. então é um dos caminhos para que o mundo pense com mais respeito e afeto pelo continente africano.

    adorei DEMAIS esse post!

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  11. Pandora!
    Muito bom ler teu post que veio ao encontro do que tenho impregnado por estes dias, por conta do livro A Pequena Abelha que acabei de ler esta semana, falando justamente sobre a globalização e a difículdade dos povos africanos em serem aceitos nos dias de hoje na Europa, como sofrem e como têm que aprender para viverem suas novas vidas naquele continente, fugindo da barbárie que fazem contra os mesmos, tanto na Europa quanto na própria África.
    um grande beijo carioca

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