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sábado, 17 de dezembro de 2011

Contos de Natal: A Magia da Gentileza...


Quando o Beto se foi, eu me tornei materialista,  fiquei muito apegada a seus objetos pessoas, roupas, tênis, jaquetas, CDS, colares, brincos. As roupas que estavam sujas eu não lavei era como se ele estivesse dentro delas, o cheiro ia ficando cada vez mais distante, mas era assim que eu o mantinha próximo de mim, passado alguns meses eu comecei a ter sonhos frequentes com o Beto onde ele pedia que eu o deixasse ir, e eu tentava desesperadamente libertá-lo.

Eu trabalho na Barra Funda, Avenida Marques de São Vicente, e foi no inverno do ano passado que comecei a amadurecer a idéia de doar suas roupas, principalmente suas jaquetas. Todos os dias eu ando a pé a Marques de São Vicente por uns 10 minutos até chegar ao meu trabalho, e me partia o coração ver naquele frio um rapaz morador de rua encolhido embaixo da cobertura de um Banco, ele usava um moletom fininho, fazia uma cabaninha de papelão e cobria o corpo com jornal, ficava tão encolhido que parecia uma criança, eu tentava ignorar aquela cena que eu via todos os dias às 5:30hs da manhã, mas eu não conseguia..(e sabia que era chegada a hora de me libertar de objetos que meu Beto não precisaria mais, e isso fazia parte do meu aprendizado, do aprendizado do meu bom José, do aprendizado do nosso Santhiago).

Em uma madrugada mês de maio de 2010 - 5:30hs da manhã, o frio e a chuva castigavam São Paulo.

"- Moço eu preciso falar contigo (ele se senta e eu me sento no chão ao lado dele).
- Pode falar moça.
- Como você se chama?
- Paulo...mas pode me chamar de Paulinho, e a Sra?
- Não precisa me chamar de Senhora, devemos ter a mesma idade, me chamo Sônia (ele olha dentro dos meus olhos).
- Paulinho, porque você não vai para um abrigo? essa noite fez 2 graus.
- É difícil Sônia, são muito moradores de rua, no frio eles dão prioridade para os idosos e para as crianças
- Não sei como você não morre de frio, como você se aquece?.
- Eu tomo uns goles de pinga pra aquecer (extremamente constrangido).
- Paulinho, eu tenho um monte de roupas em casa que servem direitinho em você, inclusive roupas que nem foram usadas, vou te trazer uns cobertores também, mas você tem que me prometer uma coisa.
- O que quer que eu prometa Sônia? (olhos cheios de lágrimas).
- Que você não vai trocar nada do que eu te der por drogas ( meus olhos cheios de lágrimas).
- Eu não uso drogas Sônia, os goles de pinga são só pra me aquecer.
- Olha Paulo, essas roupas e sapatos que eu vou te dar são de uma pessoa que amo muito, meu marido, ele se chamava José Roberto, você me entendeu?
- Entendi, e te prometo que cuidarei delas como de um filho que um dia eu quiz ter..."

A tarde, quando cheguei em casa arrumei as malas de Paulinho, não tive dó, nem dei o que eu não queria mais, dei o que eu tinha de melhor, senti a vibração do meu marido aprovando tudo aquilo, eu estava feliz...

A partir daquele dia ele comecou uma amizade tão bonita comigo, todos os dias, (aliás quase todos) me dizia "Vá com Deus, bom trabalho, que o seu dia seja repleto de flores, você é um anjo"..., mas eu percebi que em alguns dias ele não falava comigo, quando eu passava na calçada do Banco, ele cobria a cabeça com o Edredon e isso comecou a me intrigar, mas eu não perguntava porque, e isso se tornou cada vez mais frequente.

 No mês passado eu o encontrei na padaria (ele não estava usando nada do que eu dei) mas me disse que tinha absolutamente tudo não se desfez nem de um par de meias, e ressaltou o bem que aquele presente fez a ele, falando principalmente de um Tenis All Star (já bem velho) e algumas camisetas pintadas por mim. (só então  me dei conta que todas as vezes que ele vinha falar comigo não usava as roupas).

Resolvi que Paulinho iria usar nesse Natal um tênis All Star novo e uma camiseta pintada por mim no capricho, ele merecia muito mais que isso, por todos os "Vá com Deus, bom trabalho, que o seu dia seja repleto de flores, você é um anjo", de vários meses (pena que nem todos os dias), comprei o tênis vermelho (porque tudo que ele elogiava era vermelho), pintei a camiseta preta com a imagem de Nossa Senhora Aparecida (porque ele usa um escapulário no pescoço com a imagem)...faziam dois dias que eu tentava entregar os presentes, mas quando eu passava ele se cobria, e eu queria que fosse em um dia que  não tivesse que chamá-lo.

Hoje 5:30 da manhã:

"- Bom dia Soninha, espero que o seu dia seja repleto de flores.
- Bom dia Paulinho (me sento do seu lado, em cima do papelão), olho pro lado e vejo as roupas do Beto dobradas milimetricamente, como se tivessem sido passadas pela mais caprichosa das mulheres.
- Eu tenho um presente para você Paulinho,  e lhe entrego os dois pacotes, ele dá um grito e diz:
- Perdi a noção de quanto tempo não uso uma roupa e um tenis novo comprado especialmente pra mim, eu não mereço! (olhos cheios de lágrimas e cheiro de pinga).
- Merece sim, você merece muito mais que isso pelas palavras gentis que sempre me disse, pelo respeito que sempre teve comigo, mas eu preciso de perguntar uma coisa e quero que sejas absolutamente sincero comigo, posso perguntar?
- Pode! (respira profundamente, se ajeita para ficar de frente para mim, olha nos meus olhos e em seguida abaixa a cabeça)
- Porque que na maioria dos dias você se esconde quando eu passo, finge dormir? seu bom dia me faz muito bem.
- Porque eu não quero que você sofra, e todas as vezes que eu estou usando algo do Beto eu me escondo para que você não veja para não entristecer seu dia, você não merece tristeza (nesse momento desabei).
- Paulinho, eu te dei porque me fez bem, porque iria fazer muto bem ao Beto, ele esta aqui dentro de mim, eu não o esqueço um minuto, pode usar todos os dias, e por favor nunca mais deixe de me desejar boas coisas durante o meu dia, eu preciso muito de pensamentos positivos para eu continuar minha caminhada.
- Depois que você vira as costas, eu desejo Sônia, você só não ouve..."

"Paulo nunca vai saber que eu escrevi isso pra ele, porque não tem acesso, nem sabe o que é internet, talvés nem saiba escrever seu próprio nome, não tem um lar (não sei sua história), mas já nasceu gentil, seus olhos são gentis, sua voz é calma, seus gestos são suaves", (quando chove ele imita o Charlis Chaplin em "Dançando na Chuva")...E eu busco Deus em tudo e das formas mais inusitas possíveis.

O Convido pra ir tomar um café na padaria (ele põe alguns plásticos em cima das roupas e carrega os dois presentes como se fosse um filho que um dia ele quiz ter) tomamos o café, ele me dá um beijo na mão, e eu sigo meu caminho, sinto que os olhos dele me seguem até eu dobrar a esquina (como faz sempre) mas eu não olho para tráz, não quero que ele me veja chorando mais uma vez... ( sinto um misto de alegria e dor), saudades do meu bom José, alegria por ainda existirem "Paulinhos" no mundo...Ele não tem dimensão do bem que me fez...

Paulinho é  meu amigo, me ensinou uma lição, de amor, de carinho, de gratidão que eu jamais vou me esquecer...

GENTILEZA NÃO SE APRENDE, NÃO SE ADQUIRE, OU SE TEM OU NÃO SE TEM...





________

Essa história foi vivida pela Sônia Cristina Miranda Gerônimo e originalmente contada no blog A história de Santhiago em 17 de Dezembro de 2010.

8 comentários:

  1. Foi através de uma chamada da Lolipop para essa postagem da Sônia que cheguei ao http://ahistoriadesanthiago.blogspot.com e a conheci.
    Li o blog todo de um tapa (não tinha muitos posts e assim fiquei sabendo da perda dela, da ida desse Beto, o Bom José, tão amado por ela e pelo filho de ambos.
    Embora essa história tenha acontecido num mês de maio, retrata o que a maioria de nós quer que seja o Natal: uma extensão do dia para o ano todo, onde exista amizade, amor, solidariedade, carinho...
    Beijo na Sônia. Saudade dela.

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  2. Nega, você "sabe" que conheço teu blog de cabo a rabo, mas hoje vou aproveitar pra dizer que de tudo que eu li lá, essa foi uma das histórias que mais amei. Amo muito você e o lindo e bom (como o pai foi aqui, e continua sendo lá) Santhi. Bjo!

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  3. Oi Lúcia, uma bela história sim, e todos queremos carinho, amor, paz, saúde principalmente, mas nem com todos vai ser assim.
    Beijos do amigo Mauro

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  4. Fiquei emocionada ao ler esse conto, se tem uma coisa que eu nçao sei lidar é com a morte. Admiro a força da Sônia em seguir em frente e ainda a ajudar ao próximo!

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  5. Neste Natal vamos...

    Multiplicar Amor

    Que nossas mãos possam ser portadoras de paz..
    De afagos...
    De carinho...
    Que escorra delas os mais límpidos sentimentos..
    de bálsamos..
    de alívio..
    de força..
    de luz...
    Que possam ser espraiados na terra árida..
    fazendo germinar o amor entre as pessoas..
    Multiplicando cada melhor essência de nós..
    Fazendo-nos fortes ao meio à tempestade..
    Deixando-nos ver o sol que nasce..
    Que rompe a noite..
    Que se faz dia..
    Que se faz belo..
    Que se faz vida!
    Que se chama amor...

    Boas Festas!

    Bjs

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  6. Acredito em anjos; pessoas que são colocadas em nossa caminho para amenizar a nossa trajetória. Tenho certeza: Beto é um anjo.
    Boa semana! Beijus,

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  7. Ahhh, que história belíssima! Nem sei o que dizer!

    A palavra "gentileza" sempre me lembra a música d'O Teatro Mágico "Eu não sou Chico mas quero tentar".

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  8. Obrigada a cada um de vocês.

    Paulinho continua no mesmo lugar me agraciando todos os dias com 'A magiada gentileza".

    Beto continua me acompanhando, como um roçar deuma brisa, que eu só sinto, mas sei que me acompanha em cada passo.

    Eu, meu filho Santhiago e meus três filhos de quatro patas, continuamos tentando a dar um passo a cada dia.

    Feliz Natal!

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