Siga-nos por Email:

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Sobre Liberdade...

Olá!!! Pois é, eis que estou diante da minha postagem de inauguração no "Em Quantos", a Sônia me convidou e eu não resisti a tentação de aceitar, mesmo morrendo de medo, afinal está aqui ao lado de gente tão boa é um desafio e tanto.

Mas, o porém não é esse, o porém é que depois ela disse que eu podia escrever o que eu quisesse por aqui, até canção de ninar, ai é que o bicho pegou, minha cabeça deu um nó e cheguei muito fácil a situação em que estou agora: "na maior dúvida do mundo, semi-paralisada".

Num pode, eu sou geminiana, sou indecisa... Se tenho opção demais a coisa fica feia, entro em crise existencial e é no meio de minha crise existencial que começo a pensar no porque desse dilema... no porque da dúvida quanto ao que escrever se me foi dada toda a LIBERDADE?

A Liberdade Guiando o Povo, Eugène Delacroix
Talvez seja falta de costume, a Liberdade não é algo comum. Estou, e talvez não seja apenas eu, mas os seres humanos em geral, habituada a viver sobre limites, sobre o peso de normas que regulam nossa vida todo o tempo. Afinal há o que não se pode vestir, há o que não se pode comer, o que não se pode beber... fazer, ler, falar.... até pensar.

O mundo é tão cheio de intervenções que diante de uma situação de LIBERDADE a primeira coisa que vem a cabeça é a dúvida ou a sensação de incapacidade, é como ser um pássaro temeroso de abrir as asas e sair da gaiola, mesmo diante de uma porta aberta.


E em meu momento de dúvida me pergunto se sou a única que desacostumada a Liberdade vacila mais diante dela mais até do que diante de uma prisão.

Não sei, mas suspeito que a gente se acostuma tanto a viver preso a limites tão estreitos, arbitrários e sem  noção que a condição de livres nos assusta e isso é tão absurdo quanto é normal e corriqueiro. Ou será que apenas eu que passo por isso? Não sei...

O que sei é que me percebo nesse momento olhando o mundo e vendo a multidão de pássaros presos que formamos... me pego relembrando um velho texto de Marina Colasanti que minha professora do segundo ano distribuiu na sala, em que ela fala sobre o péssimo hábito que as pessoas tem de se acostumar a tudo o que não presta, não serve e sufoca.

Ela começa dizendo "Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia." e tomo de assalto essas palavras: "Eu sei que eu, e talvez muitos outros, estamos acostumados a não ter liberdade, mas não devia.". Nós deveríamos ser livres para realizar aquilo com que sonhamos, alcançar a altura que desejamos, abrir os braços e abarcar o mundo que queremos e podemos... Se isso não ofende ou machuca ninguém nós deveríamos poder, para além dos limites que nos são impostos, nós deveríamos poder SER O QUE SOMOS.

E pensando nessa possibilidade me pergunto se realmente eu não posso ser mais livre hoje do que fui ontem e amanhã do que sou agora... Me pergunto se para conquistar a Liberdade com que sonho antes de vencer o mundo eu não deveria vencer a mim mesma e o meu medo de sair da gaiola e voar.


Bem... não tenho respostas, certezas ou o conhecimento do que farei com a Liberdade que me foi oferecida, mas, deixo para os se interessarem o texto da Marina Colasanti e a Sônia o meu obrigada, afinal não é todo dia que alguém nos oferece um espaço para exercitar a Liberdade!



EU SEI, MAS NÃO DEVIA
Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.


A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Texto disponível aqui!

14 comentários:

  1. Começou lindamente minha Pand do coração! Sábia decisão da Sonia te convidar! Bjo e boa sorte!

    ResponderExcluir
  2. Eu caí na armadilha de me ascostumar a ser acostumada. Mas, me livro, ah, me livro sim...

    Beijos

    ResponderExcluir
  3. Uau, que delícia de post Pandora, começou bem!
    A liberdade é algo maravilhoso, mas como você bem disse e Marina Colassanti também, nos acostumamos a coisas demais, para não sofrer. Por isso, nesta altura da minha vida em que já vivi um pouco mais da metade, vejo que é tão bobo a gente não aproveitar aquilo que se nos apresenta para viver melhor e encontrar um pouco de felicidade, por isso tenho aproveitado melhor desta tal senhora liberdade.
    um abração carioca

    ResponderExcluir
  4. Silvia, estouc com você nesse clube dos que "vão se livrar"!!!

    Beth, obrigada pelo afago das palavras e sim aprenderei a aproveitar a liberdade \o/

    Chero meninas, obrigada pelo carinho!

    ResponderExcluir
  5. Parabéns Bella! Começou com pé esquerdo (sou canhota rsrsrs), excelente a escolha do tema, e gosto muito de Marina Colassanti.

    Liberdade é ótima! Pena que nem todos sabem usá-la...

    Beijooooooooo e sucesso!

    ResponderExcluir
  6. Te entendo, Pandora. Recentemente tive a honra de ser convidado para participar de um blog, no qual há um tanto de colaboradores; não aceitei. Sou muito individualista, não sou disciplinado, e não teria espontaneidade no blog, eu penso.

    Textos bonitos, o da Marina e o seu.

    ResponderExcluir
  7. Lindos textos. O seu e o casamento com essa bela crônica de Colasanti. Uma bela paisagem do desgaste, do cotidiano, do deixar para depois. Só resisti, sem pedir exoneração de todos os meus trabalhos, por estar ouvindo polca e valsa. O mundo está muito mais rápido do que meu relógio poético-biológico possa acompanhar. Tenho uma frase que diz: "Cheguei atrasado no mundo adiantado".

    Abraços, Pandora!

    ResponderExcluir
  8. Pandora, menina! Seu texto nem precisava ser complementado pelo da Marina. Ela é sensacional, mas você também o foi.
    Sua dissertação sobre a liberdade, sobre o quanto ela lhe assusta, foi mutio, muito boa!
    Abriu com chave de ouro sua participação.
    Beijo e,mais uma vez, bem-vinda!

    ResponderExcluir
  9. Acho que o texto da Marina Colasanti e o seu próprio texto comprovam o que já penso. Não existe liberdade. Só de eu ter que sair todos os dias pra trabalhar já me faz refém do meu trabalho. E cada pessoa tem a sua prisão, do jeito específico, até os muito ricos.

    Sorte aqui nessa sua nova fase!

    Beijocas

    ResponderExcluir
  10. Amo a liberdade, é um direito de todos. Mas gosto sempre de lembrar que ela, a liberdade, tem uma irmã inseparável: a responsabilidade. Sem esta, a liberdade vira libertinagem causando muitos estragos.
    Paz e bênçãos, querida Pandora!

    ResponderExcluir
  11. Creio que não nos conhecemos ainda Pandora, talvez tenha chegado o momento...

    Pois é amiga, a gente se acostuma e fica presa até ao que considera profundamente incorrecto!
    Ser livre é a maior ambição humana, sempre foi e será.
    Mas veja bem, pense melhor... será que alguma vez o fomos? seremos? Não creio, mas não custa tentar.

    O seu texto é um testemunho vivo do que também penso, no entanto, em todos os meus Blogues, tenho uma gaiola cheia de pássaros. A gaiola está aberta e só um voa fora.
    A frase que completa a imagem diz - Don't follow the crowd, stay true to yourself.

    Beijinho

    ResponderExcluir
  12. OI Pandora,

    Tô aqui louca de alegria, emocionada contigo (aliás você sempre me emociona) orgulhasa de mim rs, e em estado de graça com essa sua estréia e a fortaleza de suas palavras.

    Seja bem vinda...

    Ah!Eu quero a liberdade, só não sei ao certo se vou saber lidar com ela...

    Cheiro

    ResponderExcluir
  13. Fê, Bia obrigada, vcs são um doce sempre!

    Srº Verden que prazer ter o senhor por aqui, volte sempre \o/

    Obrigada Lúcia, muito gentis suas palavras.

    Oi Dama!!! Pois é talvez a Liberdade seja mesmo um mito bem contado, nas palavras de Cecilia Meireles algo "que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda".

    Concordo com você Meri, minha mãe sempre me diz isso: Liberdade caminha com Responsabilidade.

    Também eu Fernanda, creio que não nos conhecemos, então muito prazer, que possamos nos encontrar muitas vezes.

    Sônia, uma vez mais OBRIGADAAAA!!!

    ResponderExcluir
  14. Olá
    Vc utilizou magnificamente a sua liberdade, partindo das suas próprias reflexões e as possibilidades. Nós somos sere de hábitos e o novo nos assusta, por isto por mais que tenhamos liberdade acabamos, na maioria das vezes, circunscritos ao que conhecemos, Mas vc deu asas a sua imaginação neste texto, parabéns.
    bjs

    ResponderExcluir

Para receber as postagens por e-mail:

Digite seu email aqui:

Delivered by FeedBurner