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sábado, 5 de maio de 2012

CRIANÇAS QUE SÃO CRIANÇAS*


Para João e Isabel


Já não se fazem mais crianças como antigamente. Esse antigamente de que falo tem muito pouco tempo e está ligado a uma geração. Aquela que lutou por algum tipo de igualdade e liberdade de pensamento e ação, pelo menos.

Até os primórdios do capitalismo, criança não tinha infância. Na ganância por dinheiro, os proprietários dos meios de produzir as coisas colocavam-nas para trabalhar junto dos pais muito cedo. Muitos pais, por necessidade ou por aprendizado torto continuaram fazendo isso com elas muito tempo depois. O tempo acelerou a vida, o mundo cresceu demais e parece que vai acabar amanhã ou depois, de tanto que estão todos correndo atrás de alguma coisa com aparência de definitiva.

A maioria dos pais agora, na loucura de darem conta de si mesmos adianta o fim daquela que já foi uma longa e prazerosa infância para muitos. Afinal de contas, não ter tempo livre é uma perspectiva de ser reconhecido ou alguma outra forma de destaque. Não basta mais garantir a sobrevivência dignamente, tem-se que fazer o mundo notar a nossa existência. Tudo estava mais visível quando não éramos tanta gente no mundo. Tínhamos tempo a mais depois de cumpridas as obrigações diárias. Agora, a sensação que se tem olhando para os lados, para frente e pra trás é que está quase todo mundo querendo passar na frente do tempo, deixa-lo vir em busca de nosso ego insultado pela indiferença da coletividade. A mídia que já era poderosa ganhou um reforço ainda maior com tecnologias e tecnologias. Ela reforça o tempo inteiro o desejo de estarmos aparecendo para o mundo. E só se sente com certificado de reconhecimento quem nela aparece e tem seus momentos (longos ou curtos) de glória.

Filhos precisando de carinho e atenção para poder exercer seu direito a uma “infância infantil” demandam muito tempo.  No máximo que pais brincam com filhos é de coisas do mundo adulto. Divertido demais ver crianças imitando gente grande. O que era proibido como ver filmes de terror, programas de adultos na tv, conversas constrangedoras de gente grande perto delas virou chacota. Aquilo que era permitido, desejado e saudável, ficou proibido. Por exemplo? Brincar. Brincar de pique-esconde, correr atrás de uma bola de meia na queimada, andar de carrinho de rolimã, brincar de boneca com as meninas da vizinhança, agora só em eventos muito especiais. O negócio é a segurança do lar ou dos condomínios fechados. Quem não tem ou não pode, bota na frente da televisão, porque lá fora é perigoso demais.

Sociabilidade amistosa é um negócio que a criança vai ter que aprender bem depois, talvez quando já estiver adulta ou madura ou velha, ou nem aprender, já que estamos rumo ao extremo do individual. Eu não duvido se criarem daqui a pouco uma maneira de customizar o mundo particular, aquele que está gravitando em torno do umbigo.

Uma pessoa equivale a um consumidor, a um cidadão, a um a mais na disputa por algum reconhecimento e aceitação. Um computador sempre cai bem na hora de distrair a criança e ocupar o seu tempo e não ocupar o dos pais. Por isso eu acho que eles tem feito a infância ir embora tão cedo. Quatro, cinco anos, já estão aprendendo a ler e a escrever, já se vestem como adultos, participam das conversas do mundo adulto, brincam com coisas de adultos (quando brincam), especializaram em muitos casos a mandar nos adultos, junto de tanta lei e tanta proteção que foi estabelecida para a sua guarda.

João e Isabel me surpreendem mais e mais a cada dia que tenho a oportunidade traduzida em alegria de conviver com eles. Tem 10 e 9 anos e são crianças no tempo certo. Uma raridade hoje em dia. Tem ainda imaginação de crianças, gostam de brincadeiras de crianças e podem ficar  deslocados do mundo das crianças justamente porque são crianças. 

*crônica publicada no meu livro mais recente EM CÔMODOS INCÔMODOS DA MENTE

sábado, 28 de abril de 2012

NAS ONDAS DAS DESIGUALDADES


A diversidade no nosso meio é algo admirável. Boa sob muitos aspectos, principalmente naqueles que nos fazem dar saltos de emancipação mental, espiritual e material. A diversidade sã é aquela que nos permite conviver com tantas diferenças num processo que não esgarce o tecido social a ponto de sair sangue. Os saltos que damos evidenciam diferenças exibidas em vitrines quase sempre enfeitadas pelo lado material. Miséria de um lado, opulência de outro e um meio termo equilibrando precariamente os extremos opostos.

Por oportunidades, por esperteza, por esforço próprio e por rapinagem, uns acabam mostrando vitrines mais prósperas do que outros. Estamos acostumados a achar isso normal, a admitir que o ser humano é diferente: uns mais, outros menos dotados; uns potencialmente mais capazes, outros menos. Cai tudo dentro de uma normalidade aceitável. Para garantir que uns não se apossem sem esforço do que os outros possuem, criou-se um sistema político e jurídico que quase todo mundo respeita e convive pacificamente com as regras estabelecidas. Quando há permissão e existência de debate entre ideias e ideais, vence o argumento que convencer o maior número de pessoas. Nesse conjunto, ser rico e ser pobre soa quase que como um desígnio, um destino da humanidade, tal o grau de consenso que existe nas relações sociais. E em nome dessa diferença muita coisa espantosa faz a gente rir e chorar, adoecer e sarar, viver feliz ou triste, até morrermos todos e encontrarmos a igualdade nas cinzas.

A corrida foi combinada, as regras já estão aí e saímos todos correndo atrás de sobrevivência com prosperidade e felicidade. Numa reta paralela correm a vida particular, o amor e a reprodução da espécie. Aqui temos lisura e respeito, sabotagem e enganação, pois além de pessoas físicas foi inventada uma pessoa metafísica, corporificada no nome de empresas ou pessoas jurídicas. Isso é o resultado de quem acumulou bens materiais ou quer chegar lá. É o momento em que se intensificam as desigualdades. Alguém tem que trabalhar para manter esse status quo da pessoa jurídica em troca de um pagamento.  Há uma relação de mando, de obediência e de dependência. Quem manda e é dono tem a concorrência de outros que mandam e também são donos. Quem obedece e depende tem a concorrência de outros na mesma situação. Se quiserem chamar isso de classes, não tem problema, fica mais fácil o entendimento. Difícil é aceitar passivamente. Senão seríamos povo de uma harmonia inabalável.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Cartola, no moinho do mundo

Por esses dias estive vendo o Especial Por Toda Minha Vida falando sobre Cartola e resolvi postar esse texto escrito por Drummond em homenagem a ele. Não vivi esses dias, mas talvez alguém que viveu passe por aqui e lembre e quem como eu não viveu talvez possa passar por aqui e se inquietar em descobrir um pouco mais a respeito de quem foi esse brasileiro.
_____

Cartola, no moinho do mundo


Você vai pela rua, distraído ou preocupado, não importa. Vai a determinado lugar para fazer qualquer coisa que está escrita em sua agenda. Nem é preciso que tenha agenda. Você tem um destino qualquer, e a rua é só a passagem entre sua casa e a pessoa que vai procurar. De repente estaca. Estaca e fica ouvindo.

Eu fiz o ninho.
Te ensinei o bom caminho.
Mas quando a mulher não tem brio,
é malhar em ferro frio.

Aí você fica parado, escutando até o fim o som que vem da loja de discos, onde alguém se lembrou de reviver o velho samba de Cartola; Na Floresta (música de Sílvio Caldas).

Esse Cartola! Desta vez, está desiludido e zangado, mas em geral a atitude dele é de franco romantismo, e tudo se resume num título: Sei Sentir. Cartola sabe sentir com a suavidade dos que amam pela vocação de amar, e se renovam amando. Assim, quando ele nos anuncia: “Tenho um novo amor”, é como se desse a senha pela renovação geral da vida, a germinação de outras flores no eterno jardim. O sol nascerá, com a garantia de Cartola. E com o sol, a incessante primavera.

A delicadeza visceral de Angenor de Oliveira (e não Agenor, como dizem os descuidados) é patente quer na composição, quer na execução. Como bem me observou Jota Efegê, seu padrinho de casamento, trata-se de um distinto senhor emoldurado pelo Morro da Mangueira. A imagem do malandro não coincide com a sua. A dura experiência de viver como pedreiro, tipógrafo e lavador de carros, desconhecido e trazendo consigo o dom musical, a centelha, não o afetou, não fez dele um homem ácido e revoltado. A fama chegou até sua porta sem ser procurada. O discreto Cartola recebeu-a com cortesia. Os dois convivem civilizadamente. Ele tem a elegância moral de Pixinguinha, outro a quem a natureza privilegiou com a sensibilidade criativa, e que também soube ser mestre de delicadeza.

Em Tempos Idos, o divino Cartola, como o qualificou Lúcio Rangel, faz o histórico poético da evolução do samba, que se processou, aliás, com a sua participação eficiente:

Com a mesma roupagem
que saiu daqui
exibiu-se para a Duquesa de Kent
no Itamaraty.

Pode-se dizer que esta foi também a caminhada de Cartola. Nascido no Catete, sua grande experiência humana se desenvolveu no Morro da Mangueira, mas hoje ele é aceito como valor cultural brasileiro, representativo do que há de melhor e mais autêntico na música popular. Ao gravar o seu samba Quem Me Vê Sorrir (com Carlos Cachaça), o maestro Leopold Stockowski não lhe fez nenhum favor: reconheceu, apenas, o que há de inventividade musical nas camadas mais humildes de nossa população. Coisa que contagiou a ilustre Duquesa.

* * *

Mas então eu fiquei parado, ouvindo a filosofia céptica do Mestre Cartola, na voz de Sílvio Caldas. Já não me lembrava o compromisso que tinha de cumprir, que compromisso? Na floresta, o homem fizera um ninho de amor, e a mulher não soubera corresponder à sua dedicação. Inutilmente ele a amara e orientara, mulher sem brio não tem jeito não. Cartola devia estar muito ferido para dizer coisas tão amargas. Hoje não está. Forma um par feliz com Zica, e às vezes a televisão vai até a casa deles, mostra o casal tranqüilo, Cartola discorrendo com modéstia e sabedoria sobre coisas da vida. “O mundo é um moinho...” O moleiro não é ele, Angenor, nem eu, nem qualquer um de nós, igualmente moídos no eterno girar da roda, trigo ou milho que se deixa pulverizar. Alguns, como Cartola, são trigo de qualidade especial. Servem de alimento constante. A gente fica sentindo e pensamenteando sempre o gosto dessa comida. O nobre, o simples, não direi o divino, mas o humano Cartola, que se apaixonou pelo samba e fez do samba o mensageiro de sua alma delicada. O som calou-se, e “fui à vida”, como ele gosta de dizer, isto é, à obrigação daquele dia. Mas levava uma companhia, uma amizade de espírito, o jeito de Cartola botar em lirismo a sua vida, os seus amores, o seu sentimento do mundo, esse moinho, e da poesia, essa iluminação.

Carlos Drummond de Andrade
In Jornal do Brasil
27/11/1980
© Graña Drummond
Disponível aqui!
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E sim, aviso aos navegantes que partir de Segunda estaremos contando com mais uma colaboradora na família do "Em Quantos...".

Quem chega é a Gabriela Corrêa!!!


A quem eu deixo o meu:


sábado, 21 de abril de 2012

TERAPIA II


"É a perda da memória, e não o culto à memória, que nos fará prisioneiros do passado". Isabel Allende





Às vezes penso que quando determinadas pessoas tratam a gente por saudosista, dizendo que “quem gosta de passado é museu”, que “lembrar do passado é sofrer dobrado”, além de outras ofensas à memória, estão exercendo um esquecimento preventivo mas com medo de não irem adiante. Uma ingênua estratégia de sobrevivência. Se não há lembrança do que passou é porque o presente não apontou ainda o vir a ser. E não vai ser a negação do passado que irá garantir um futuro melhor. “Esquecer de nós mesmos é assinar um contrato com a resignação”, disse muito bem a Martha Medeiros*. E eu acrescento que projetar o incerto sem uma referência é sofrer por antecipação.

 Pois bem, creio que encontrei um motivo de tanto saudosismo de minha parte. Há a vida vivida com intensidade. Há situações vividas que se transformam em história. Só é agraciado com o saudosismo quem criou história cuja intensidade deixou marcas. Por isso as situações são lembradas. Como exemplares. Tanto para serem revividas com saudade ou para não serem esquecidas por aprendizado. Erros se vierem a acontecer novamente, que sejam novos, eis a confirmação do nosso lado demasiado humano. Se não ficamos sem cometê-los, que não venhamos a repeti-los. Por isso é bom lembrar. Revisitar o passado de vez em quando (e não ele nos visitar) nos fortalece. Há lembranças que foram tão marcantes na nossa vida que não há com fugir delas, desprezar, esquecer. Às vezes ficam num canto escuro da mente e a qualquer estímulo, elas pulam sozinhas para fora, sem que tenhamos dado autorização. Viram falas, causos, poesias, crônicas, romances, seja falando bem ou mal. Então me lembro de tanta coisa e vou classificando aquelas que marcaram para sempre, feito nódoa que não sai com tira manchas, feito cicatriz de queimadura, feito tatuagem. O “deixar pra lá” é que nos faz vítimas. De enganos, de dominação, de uma síndrome de mal amados, vítimas de nossa própria prisão a um presente que põe a gente para andar em círculos.



* citado na crônica Tempos de Amnésia Obrigatória.

sábado, 14 de abril de 2012

TERRORISMOS DOMÉSTICOS


Já houve uma época em que se exercia um terrorismo doméstico com apoio ou pelo menos cumplicidade estatal estadual, municipal e federal de toda espécie. Criança desobediente virava potencial vítima do bicho papão, da mula sem cabeça, do boi da cara preta. A este último concedam perdão para Dorival Caymmi. Dizem que a belíssima canção Acalanto* ele fez em homenagem à sua filha Nana, a quem ajudava a fazer dormir de vez em quando. Eu a cantei muitíssimas vezes ninando as minhas duas filhas. A letra e a melodia toda são muito lindas e só peca no momento de invocar o ser medonho para a menina. Se bem que um bebê de colo sequer associa as palavras com imagens. O que conta para eles é a melodia. Se o cantador que estiver ninando a criança for muito desafinado, creio que assusta muito mais do que um boi da cara preta propriamente, que a criança nem sabe o que seja.

Eram as formas de que se dispunha antigamente, através do mistério e da intimidação para manter as crianças sob obediência cega. Diante do mistério, se a gente não possui conhecimento ou defesa, o jeito é enfiar a coragem entre as pernas e ir dormir calado ou chorando sob as cobertas. Não deixando apagar a luz do quarto, por vias das dúvidas. Hoje em dia a letra seria diferente por exigência de um movimento de purificação que ronda a educação dos filhos por ai afora.

Há ainda outros terrorismos e me prendo aqui às aulas particulares que costumamos arranjar para os filhos que estão com dificuldade escolar em alguma matéria. Alguns pais normalmente antes de procurarem uma terapia de casal, de questionar a metodologia da escola, o temperamento do professor, já imputam aos filhos a culpa pelo “fracasso” e lhe matriculam em uma aula particular. Desconheço um adulto que foi vítima desse terror na infância a passou a gostar da matéria em que foi obrigado a fazer aulas de reforço.

Eu, ex-terrorista doméstico, um dia dei um jogo eletrônico de Sudoku para a minha filha que já era refém das aulas de Kumon. A menina abriu o brinquedo com um sorriso mais amarelo que se pode imaginar, com aquele olhar de subtração e o encostou em um canto para não me fazer desfeita. Nunca mais brincou com o troço e até hoje tem horror à matemática. A sensação que tenho do que ela sentiu à época é como se eu desse a um preso injustamente numa cela um par de algemas prendendo seus braços para ele ir brincando de aprender a abri-la durante a sua pena.


*ACALANTO
Dorival Caymmi

É tão tarde, a manhã já vem
Todos dormem, a noite também
Só eu velo por você, meu bem
Dorme anjo, o boi pega neném


Lá no céu deixam de cantar
Os anjinhos foram se deitar
Mamãezinha precisa descansar
Dorme anjo, papai vai lhe ninar

Boi, boi, boi
Boi da cara preta
Pega essa menina
Que tem medo de careta

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