Para João e Isabel
Já não se fazem mais crianças
como antigamente. Esse antigamente de que falo tem muito pouco tempo e está
ligado a uma geração. Aquela que lutou por algum tipo de igualdade e liberdade
de pensamento e ação, pelo menos.
Até os primórdios do capitalismo,
criança não tinha infância. Na ganância por dinheiro, os proprietários dos
meios de produzir as coisas colocavam-nas para trabalhar junto dos pais muito
cedo. Muitos pais, por necessidade ou por aprendizado torto continuaram fazendo
isso com elas muito tempo depois. O tempo acelerou a vida, o mundo cresceu
demais e parece que vai acabar amanhã ou depois, de tanto que estão todos
correndo atrás de alguma coisa com aparência de definitiva.
A maioria dos pais agora, na
loucura de darem conta de si mesmos adianta o fim daquela que já foi uma longa
e prazerosa infância para muitos. Afinal de contas, não ter tempo livre é uma
perspectiva de ser reconhecido ou alguma outra forma de destaque. Não basta
mais garantir a sobrevivência dignamente, tem-se que fazer o mundo notar a
nossa existência. Tudo estava mais visível quando não éramos tanta gente no
mundo. Tínhamos tempo a mais depois de cumpridas as obrigações diárias. Agora,
a sensação que se tem olhando para os lados, para frente e pra trás é que está
quase todo mundo querendo passar na frente do tempo, deixa-lo vir em busca de
nosso ego insultado pela indiferença da coletividade. A mídia que já era
poderosa ganhou um reforço ainda maior com tecnologias e tecnologias. Ela
reforça o tempo inteiro o desejo de estarmos aparecendo para o mundo. E só se
sente com certificado de reconhecimento quem nela aparece e tem seus momentos
(longos ou curtos) de glória.
Filhos precisando de carinho e
atenção para poder exercer seu direito a uma “infância infantil” demandam muito
tempo. No máximo que pais brincam com
filhos é de coisas do mundo adulto. Divertido demais ver crianças imitando
gente grande. O que era proibido como ver filmes de terror, programas de adultos
na tv, conversas constrangedoras de gente grande perto delas virou chacota.
Aquilo que era permitido, desejado e saudável, ficou proibido. Por exemplo?
Brincar. Brincar de pique-esconde, correr atrás de uma bola de meia na
queimada, andar de carrinho de rolimã, brincar de boneca com as meninas da
vizinhança, agora só em eventos muito especiais. O negócio é a segurança do lar
ou dos condomínios fechados. Quem não tem ou não pode, bota na frente da
televisão, porque lá fora é perigoso demais.
Sociabilidade amistosa é um
negócio que a criança vai ter que aprender bem depois, talvez quando já estiver
adulta ou madura ou velha, ou nem aprender, já que estamos rumo ao extremo do
individual. Eu não duvido se criarem daqui a pouco uma maneira de customizar o
mundo particular, aquele que está gravitando em torno do umbigo.
Uma pessoa equivale a um
consumidor, a um cidadão, a um a mais na disputa por algum reconhecimento e
aceitação. Um computador sempre cai bem na hora de distrair a criança e ocupar
o seu tempo e não ocupar o dos pais. Por isso eu acho que eles tem feito a
infância ir embora tão cedo. Quatro, cinco anos, já estão aprendendo a ler e a
escrever, já se vestem como adultos, participam das conversas do mundo adulto,
brincam com coisas de adultos (quando brincam), especializaram em muitos casos
a mandar nos adultos, junto de tanta lei e tanta proteção que foi estabelecida
para a sua guarda.
João e Isabel me surpreendem mais
e mais a cada dia que tenho a oportunidade traduzida em alegria de conviver com
eles. Tem 10 e 9 anos e são crianças no tempo certo. Uma raridade hoje em dia. Tem ainda imaginação
de crianças, gostam de brincadeiras de crianças e podem ficar deslocados do mundo das crianças justamente
porque são crianças.
*crônica publicada no meu livro mais recente EM
CÔMODOS INCÔMODOS DA MENTE


